
Inteligente e arguto, Exu é o grande mantenedor da ordem, da organização e da disciplina. Defensor da justiça, bom amigo e bom conselheiro, é também alegre, leal e fiel. Considerado um dos mais importantes orixás do panteão iorubá, Exu, o Inspetor Geral de Olodumare e o fiscal dos rituais na Religião Tradicional Iorubá, age associado a Orumilá-Ifá que, segundo as narrativas míticas, é o seu melhor amigo. Relaciona-se com todos os orixás e com todos os seres dos reinos mineral, vegetal, animal e humano. Está sempre presente nos locais de encontro de caminhos, representados pelas encruzilhadas. Presente também no encontro do orun com o aiyê, favorece o equilíbrio entre forças materiais e espirituais, possibilitando a realização de um bom destino. Promove alívio para os sofrimentos e, como foi atribuído de poder para manipular o ebó, pode influenciar o destino. Nos rituais de ebó é Exu quem propicia a energia necessária à sua manipulação e transporte e é a ele que compete estabelecer canais de comunicação entre o sofrimento humano, o ebó e as divindades que o receberão para promover alívio do sofrimento humano. A influência desse orixá sobre um destino, inclusive corrigindo caminhos cuja escolha foi determinada por um mau ori, é possível, desde que seus princípios sejam adotados e respeitados: ordem, organização e disciplina. Esses princípios se manifestam através da prática de virtudes como lealdade, respeito, coragem, perseverança e, principalmente, paciência. A ordem surge do caos e a justiça, muitas vezes, decorre da injustiça. Sendo Exu detentor dos princípios básicos da paz e da harmonia, a ele compete regular a ordem, impondo disciplina e organização, opostos da confusão e da desordem. Disciplina e organização conquistam-se através do exercício da paciência. Exu é uma personagem controversa, talvez a mais controversa de todas as divindades do panteão iorubá. Alguns o consideram exclusivamente mau, outros o consideram capaz de atos benéficos e maléficos ao mesmo tempo e outros, ainda, enfatizam seus traços de benevolência. Em grande parte da literatura Exu é apresentado como um ser ambíguo, uma entidade neutra entre o bem e o mal ou, simultaneamente, bom e mau; por vezes é apresentado como o inimigo do homem. Um provérbio iorubá elucida a respeito dessa atribuição feita ao Orixá Exu: Olotó ni òtá aiyé (Aquele que diz a verdade é inimigo dos seres): aponta para o fato de que Exu julga e, ao manifestar a verdade, nem sempre agradável de ouvir, é considerado um inimigo.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br

Orumilá, Ifá ou Ifá-Orumilá, a divindade oracular dos iorubás, é respeitado por sua sabedoria. As palavras Ifá-Orumilá e Orumilá designam a divindade, enquanto Ifá designa, simultaneamente, a divindade e o sistema divinatório a ela associado. Òrúnmìlà forma-se da contração de órun-l’ó-mo-à-ti-là (somente o céu conhece os meios de libertação), ou de órun-mo-olà (somente o céu pode libertar). Ifá, por sua vez, tem por raiz fa (acumular, abraçar, conter), indicando que todo o conhecimento tradicional iorubá acha-se contido no corpus literário de Ifá, ou Odù Corpus. Seus principais símbolos são ikin (sementes de palmeira), òpèlè (a corrente divinatória, de uso privativo de seus sacerdotes, feita com oito metades da semente sagrada de mesmo nome), óta (pedra de assentamento), ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder), obi, orobô, búzios e pedaços de presa de elefante gravados, que ficam guardados em um receptáculo colocado em lugar alto, num canto ou no centro do cômodo. Seus colares e pulseiras são confeccionados alternando-se contas de cor verde e marrom.
Para orientar os que o procuram, o sacerdote de Ifá, chamado bàbáláwo (babalaô, pai do segredo), reporta-se ao Odù Corpus, conjunto riquíssimo de conhecimentos esotéricos e registros históricos da milenar tradição iorubá. Utiliza-se de sementes de ikin ou da corrente òpèlè, cuja configuração geomântica remete a um dos 256 odus lá contidos, cujos itan (narrativas míticas) estabelecem analogias entre a situação das personagens e trajetória existencial do consulente. Ifá compreende todos os idiomas da terra, o que lhe possibilita aconselhar todos os seres humanos, sem exceção. O corpus literário de Ifá guarda a história dos orixás e o ensinamento de curas através do uso de ervas. Por isso seus sacerdotes devem conhecer, além da prática divinatória, o preparo de remédios. Orumilá tem por irmão mais novo Ossaim, a divindade da cura, de cujo auxílio serve-se desde os primórdios. No jogo oracular, Exu é divindade particularmente importante, dada a sua relação estreita de amizade com Ifá.
Indivíduos de várias origens têm procurado iniciações em Ifá, tanto em território africano quanto nos países da diáspora. Esta prática é altamente recomendável, pois esta iniciação, em particular, marca seu ingresso formal na Religião Tradicional Iorubá. Além disso, em tal circunstância revela-se o odu de nascimento de cada pessoa, que indica o seu destino na terra.
As regras que o babalaô obedece incluem não se aproveitar das próprias prerrogativas. Como possui amplos e profundos conhecimentos é procurado por muitas pessoas, algumas em situação de crise, fragilizadas pelas circunstâncias difíceis que enfrentam, mergulhadas num sofrimento do qual querem escapar, literalmente, a qualquer preço – e isto favorece o abuso de poder. Entretanto, recebe a advertência de não agir em benefício próprio. Entende-se que o grande privilégio e a grande riqueza do sacerdote de Orumilá reside na oportunidade de estar a seu serviço. Este itan do Odu Ofu-Ose, narrado ao Babá King pelo venerável Babalaô Fabunmi Sowunmi, elucida a esse respeito:
Eni to ba puro
Iro a pa
Eni ti o ba seke
Eke a ke won lowo
A ke wån lese
A ti won si gburugburu ona oun
Awon lo se ifa fun ajangurumale
Ti nse oluwo lode orun
Gbogbo eni ti o ba
Nfi suru pe suru
Ajangurumale ifa
Ni yoo ja won sorun
Gbogbo eni ti o ba
Nfi suru pe suru
Ajangurumale, ifa ni yoo ja won sorun
E ma fi oku pe aye
E ma fi aye pe oku
Eni ti o ba fi oku pe aye
Eni ti o ba fi aye pe oku
Ajangurumale ifa ni yoo ja won sorun
Ajangurumale
E ma fi abiyamo pe agan
E ma fi agan pe oyibi
Eni ti o ba fi abiyamo pe agan
Ti o fi agan pe oyibi
Ajangurumale, ifa ni yoo ja won sorun.
Aquele que mente será destruído pela mentira
Aquele que provoca discórdia será destruído pela discórdia.
A falsidade despojará o falso da força vital de que dispõe. A falsidade destruirá os falsos.
Foram eles que adivinharam para Ajagunmale (Ifá), sábio supremo no orun.
Todos aqueles que trocam a verdade pela mentira serão levados para o orun por Ajagunmale (Ifá)
Não chamem o morto de vivo, nem chamem o vivo de morto
Quem chama o morto de vivo ou chama o vivo de morto será levado para o orun por Ajagunmale (Ifá)
Não chamem uma mulher fértil de estéril, nem chamem uma mulher estéril de fértil
Quem chama uma mulher fértil de estéril ou chama uma mulher estéril de fértil será levado para o orun por Ajagunmale (Ifá)
Não chamem o preto de branco, nem chamem o branco de preto
Quem chama o preto de branco ou chama o branco de preto, será levado para o orun por Ajagunmale (Ifá)
Orunmilá diz que prefere matar o babalaô que mente para quem o procura em busca da verdade e colocar em seu lugar um homem ignorante a respeito da complexa sabedoria de Ifá
Orunmilá prefere um homem que não conhece a sabedoria de Ifá do que um grande conhecedor dessa sabedoria que seja falso e mentiroso.
Referências:
SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br

Ori, a essência real do ser, é uma divindade pessoal que guia e ajuda toda pessoa antes do nascimento, durante a vida e após a morte. O sentido literal de orí é cabeça física, e esta é o símbolo de orí inú, a cabeça interior, responsável pela constituição do ser e sua trajetória existencial: quando o orí inú está bem, todo o ser do homem está em boas condições. O ori, entidade parcialmente independente, considerada uma divindade por si própria, é cultuado entre outras divindades, recebendo oferendas e orações, como o famoso ritual de borí, que significa dar de comer ao ori. Enquanto divindade pessoal, ori é o mais interessado de todos os orixás no que diz respeito ao bem-estar de seu devoto: pode-se dizer que é a mais importante das divindades dado que, seja qual for o empenho das outros em favorecer determinada pessoa, todo e qualquer progresso dependerá sempre do que for sancionado por Ori. Se o ori de um homem não simpatiza com sua causa, nada poderá ser feito por outra divindade. Assim, o que ori não sanciona não pode ser concedido nem por Olodumare, nem pelos orixás. Todos nós nascemos com um destino para realizar, o que não significa sermos meros joguetes nas mãos de forças inteiramente deterministas. O homem tem o poder de tomar em suas mãos as rédeas do curso da própria existência e participar de modo responsável de seu desenrolar, através da busca de ampliação da consciência e dos conhecimentos e através do desenvolvimento disciplinado da Vontade. Certamente os esforços pessoais são mais efetivos se desenvolvidos por um olórí rere (sortudo, abençoado, bendito). Mas, para um olórí bùrúkù. (azarado, condenado à vida, amaldiçoado), a exigência de esforços é bem mais pesada. Portador de um destino adverso, muito esforço deverá despender em suas realizações. Orí inú (cabeça interna) e Eleda (destino pessoal) inter-relacionam-se, pois, intimamente. Os seres humanos são constituídos dos seguintes princípios vitais: ará (o corpo físico); òjìji (representação visível da essência espiritual que acompanha o homem durante a vida, morrendo junto com ará, embora não sendo enterrado com ele); okàn (coração, relacionado ao sangue e sede da inteligência e do pensamento intuitivo, a alma e a fonte de toda ação); Ämí (princípio ou sopro vital, relacionado à respiração, mas não se reduzindo a ela, pois se diz por ocasião da morte que èmí foi embora; significa também espírito ou ser). Um dos nomes de Elédùnmarè (o Ser Supremo ou Deus) é Orísé (Fonte da qual originam-se os seres), o que mostra sua ligação profunda com cada criatura existente. Todo ori, embora criado bom, acha-se sujeito a mudanças. Feiticeiros, bruxas, homens maus e a própria conduta podem transformar negativamente um ori, sendo sinal dessa transformação uma cadeia interminável de infelicidades na vida de um homem a despeito de seus esforços para melhorar. Podemos perguntar: como saber se a escolha do próprio ori foi boa ou má? Pode um homem conhecer as potencialidades da própria cabeça ou da cabeça de outrem? Encontramos a seguinte resposta: o jogo divinatório de Ifá possibilita que a pessoa tome conhecimento dos desígnios do próprio ori, saiba a respeito do orixá ou ancestral que deve ser cultuado e conheça seus èwò (proibições quanto ao consumo de alimentos, uso de cores e condutas morais). Como se crê que o ori dos pais traz boa fortuna aos filhos, é comum a recomendação do oráculo no sentido de que sejam feitas ofertas sacrificiais ao ori dos pais e estes, ao orarem pelos filhos, apelam ao prório ori: Orí mi á sìn ó lo (Possa meu ori ir com você ou Possa meu ori guiá-lo e abençoá-lo). Analogamente, o ori de uma pessoa tem condições de proteger, ajudar ou, ainda, prejudicar outras pessoas.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
A palavra Odù designa 256 orixás que estabelecem relações hierárquicas entre si e, simultaneamente, cada um dos capítulos do corpus literário de Ifá e suas respectivas configurações geomânticas, obtidas pela queda dos búzios, dos ikin ou do òpèlè. O corpus literário de Ifá é, ao mesmo tempo, o conjunto de saberes sagrados e códigos de conduta do povo iorubá e o registro de todos os acontecimentos míticos e históricos dignos de nota desse povo, transmitidos entre os babalaôs de geração a geração há milênios através da longa cadeia da tradição oral. Há 16 odus maiores, Ojù Odù, e 240 menores, Omo Odù ou Àmúlù Odù, compondo um total de 4.096 (16 x 16 x 16) poemas que servem de suporte para a interpretação oracular. Os Omo Odù, literalmente criança/filho do Odu, são considerados filhos dos odus maiores, sendo seus nomes compostos pelos nomes dos principais, dos quais “herdam” características.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Episódios de aborto e morte prematura de crianças, jovens e adultos podem ser compreendidos como resultantes da ação dos Àbíkú, também chamados Emèré, espíritos pertencentes à Egbé-Àbíkú (Sociedade Abiku). A palavra àbíkú é constituída de a, bí, (ó) ku, que ignifica tanto nascido para morrer quanto o parimos e ele morreu: designa crianças e jovens que morrem antes de atingir a idade adulta e adultos que morrem antes dos pais. Assim, há duas qualidades de abiku: os àbíkú-omódé, que morrem ainda crianças, e os àbíkú-àgbà, que morrem jovens ou adultos. Tais indivíduos estabelecem com a Sociedade Abiku o ójó orí, pacto de retornarem ao orun ao ser atingida determinada idade. Quando uma mulher sofre sucessivas perdas de filhos recém-nascidos, ainda pequenos, jovens ou mesmo adultos, considera-se que esteja sob a ação de um abiku, espírito que nasce múltiplas vezes através de um mesmo corpo feminino por determinação do destino dessa mulher, por obra de magia ou por circunstâncias de acaso, como a aquisição inadvertida de um abiku por uma grávida que não tenha tomado os devidos cuidados contra isso. Quando uma mulher perde filhos assim, suspeita-se que se trate da ação de àbíkú-omodé; e os episódios de perda de filhos serão interrompidos somente se tomadas as necessárias providências para romper o vínculo desses seres espirituais com a comunidade à qual pertencem no orun. Quanto aos àbíkú-àgbà, o pacto por eles estabelecido com a sociedade determina que o retorno ao orun ocorra em algum momento muito significativo e importante da vida, que pode ser crítico ou de sucesso, como em uma data próxima à formatura, ao casamento, ao nascimento de um filho desejado ou a uma conquista social notável.
Referências:
SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Ìbéjì, palavra formada a partir de ìbí (parir) e ejì (dois), significa Parir dois ou Gestação dupla, indicando o nascimento de gêmeos. O primeiro a nascer recebe o nome de Táíwò (A primeira criança, A criança mais nova, Aquele que vai conhecer a vida) e o segundo o de Kéhìndé (A segunda criança, A criança mais velha), sendo considerado espiritualmente mais velho. Toda criança nascida após o parto de gêmeos recebe o nome de Ìdòwú (equilíbrio das crianças Ibeji). Quanto ao orixá Ibeji, ele protege contra a morte prematura, acalma o sofrimento material e espiritual, orienta o ori do abiku e dos devotos a seguir o caminho certo, atrai progresso econômico e desenvolvimento espiritual, harmoniza a vida material com a espiritual, proporciona sentimentos de paz, tranquilidade, serenidade, confiança, fertilidade, transforma lágrimas em sorrisos. É associado à duplicidade – entre o existir e o não existir, o fazer e o não fazer. É sedutor, capaz de atrair condições para conquistas, domina recursos para promover cura e bem-estar, interfere no destino humano, removendo obstáculos da vida das pessoas, como denota este oriki: Òkánlàwón, igbénijú, erelú amo mbá bí, mbá là (Criança nobre entre as demais, se tiver você, prosperarei). Uma de suas cantigas traz o seguinte: Omo méjì ni Èjìré tó sò ilé alákisà di aláso (Ejìré são duas crianças que fazem prosperar o lar do mal-sucedido). Ibeji possui manifestação dupla: através da simbologia do orixá e através das crianças gêmeas, que são o seu símbolo máximo e que, frequentemente, são mandadas à terra por algum orixá para aliviar o sofrimento de uma família. O nascimento de gêmeos pode ser um problema ou uma solução para os pais, dependendo do zelo que tiverem: convém que reverenciem os próprios filhos, considerados semidivindades, sem desconsiderar suas necessidades de crianças humanas, e que simultaneamente cultuem Ibeji para ganhar novas forças e conservar a grande energia recebida com o nascimento desses filhos. Quanto às próprias crianças ibeji observa-se que, por maior que seja sua semelhança física, têm expressivas diferenças quanto a seus oris e destinos, sendo bastante comum a disputa entre eles. Costuma ocorrer que um dos irmãos alcança sucesso e o outro fracassa na vida. Para que essa diferença não chegue a extremos é preciso equilibrar as energias dos irmãos e cultuar Ibeji. Não há ritual de iniciação em Ibeji, nem assentamento, nem incorporação nesse orixá. Como o orixá Ibeji (de modo análogo ao que ocorre com as Iyami) não incorpora em humanos, é reverenciado nas próprias pessoas a eles dedicadas. A forte identificação dessas pessoas com a divindade que representam convida os demais à reverência. Há uma relação importante entre Ibeji e Egbé Aragbô: Ibeji liga-se à natureza de modo geral e à floresta, morada de Egbé, de modo particular. Para cultuar um é preciso cultuar também o outro. As pessoas adquirem certas características ao cultuar Ibeji (que idênticas às dos devotos de Egbé): são calmos, alegres, brincalhões, sociáveis, gratos, confiantes, esperançosos, leais, comunicativos, versáteis (tendem a abraçar diversas atividades simultaneamente), apreciadores de música e dança.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Os seres veneráveis incluem divindades, que personificam fenômenos da natureza, e ancestrais, associados a elementos estruturantes da sociedade. O princípio de senioridade, um dos mais estimados na África, determina que os mais velhos ocupem postos hierárquicos superiores e que os mais jovens respeitem-nos por sua experiência e sabedoria, desde que a idade traga valores como um grande número de descendentes e condições materiais satisfatórias de vida e virtudes como paciência. Na religião dos orixás qualquer indivíduo notável, dotado de uma existência plena e de uma morte suave em idade avançada, pode integrar o corpo dos ancestrais veneráveis da humanidade, desde que seus rituais fúnebres sejam realizados. Os ancestrais masculinos têm sua instituição em diversas sociedades, como Egúngún, Ìgunnukó, Oro e Agemo. Os ancestrais femininos, as Ìyá-Agbà (Mães Anciãs ou Veneráveis Mães Anciãs), também têm sua instituição em diversas sociedades, entre as quais Gèlèdé.
A palavra Egúngún designa, ao mesmo tempo, um orixá, o conjunto dos ancestrais masculinos da humanidade e o conjunto dos ancestrais masculinos de uma família; é derivada de egún, que significa osso ou esqueleto. No entanto, enquanto por egún se entende um ancestral em particular, um antepassado já-ido, habitante do orun, que pode se manifestar no aiye, e que pode não ser venerável, Egúngún ou Babá-Égún designa toda uma coletividade de seres veneráveis.
Nos cultos aos ancestrais masculinos, Egungun ocupa o lugar central. Os ancestrais permanecem junto a seus descendentes e interferem em todos os âmbitos da vida pessoal e familiar de cada um deles, apaziguando ânimos, atenuando discórdias, estimulando a solidariedade, o espírito de unidade e a harmonia, renovando a energia exigida para o trabalho e interferindo em questões de ameaça de desagregação familiar, em casos de disputa e em problemas de herança, entre tantas possibilidades. Com voz rouca ou utilizando tons agudos, trepidantes, sibilantes ou nasais, previne e ordena, e sua palavra é aceita e respeitada.
A presença de Egungun na vida cotidiana de seus devotos mantém viva a relação de respeito e reverência aos mais velhos: apenas esta razão justifica o culto a este grande orixá. Mas o culto a Egungun possui, entre outros, o objetivo de corrigir efeitos de uma herança de caráter espiritual que se reflete em desequilíbrios de toda ordem: física, emocional, espiritual. Cada indivíduo recebe de seus antepassados uma herança biológica, emocional e espiritual, uma carga genético-espiritual/emocional. O culto a Egungun possibilita agir retroativamente no sentido de eliminar fatores desfavoráveis ocorridos ao longo das sete gerações anteriores de uma pessoa, dos quais decorreram dificuldades, doenças e problemas de toda ordem em sua vida. Esse culto também possibilita resolver conflitos familiares vividos por pessoas das gerações passadas para restabelecer o equilíbrio perturbado.
Referências:
SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Ajé é uma Ìyá-Agbà (Mãe Anciã ou Mãe Idosa e Respeitável). Como é o orixá da prosperidade, relaciona-se ao nascimento, à vida e à morte das pessoas. Ela é ao mesmo tempo representante do dinheiro dos homens e guardiã do progresso dos homens e dos orixás. Como detém o poder de tornar os feitos dos orixás reconhecidos, é cultuada também por eles. Seus iniciados geralmente são iniciados também em Iemanjá, Olocum e Oxum, pois todos eles possuem ligações estreitas. A palavra Ajé pode ser traduzida como Progresso para você, Sucesso para você e Que aquilo que você espera de seu trabalho se concretize. Ajé Ògúgúlúsò significa Ajê, Senhora da morada da sorte e das realizações do homem. Ajé Saluga significa Ajê, Senhora do paraíso da riqueza. Ajê é uma orixá paciente, próspera, fértil, longeva, sábia, harmoniosa, generosa, tolerante, justa e protetora da riqueza do homem (em todos os sentidos), atraindo dinheiro para quem a cultua. Protetora do progresso, defende as pessoas da inveja e de forças invisíveis que impeçam seu desenvolvimento econômico. Favorece o uso sábio do dinheiro e protege as pessoas de receberem “mau dinheiro”, advindo de pagamentos realizados de má vontade ou com raiva.
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SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Esta Ìyá-Agbà (Mãe Anciã ou Mãe Idosa e Respeitável), de relação estreita com as Iyami,é a orixá da caça, arte na qual, juntamente com Oxossi, é discípula de Ogum. Associada à caça e à capacidade estratégica, Erinlé possui intuição e percepção aguçadas: por isso é cultuada para atrair agilidade e, de fato, traz sorte nos negócios e em assuntos relativos a dinheiro. Zeladora de assuntos familiares, é também a protetora dos humilhados e dos injustiçados. Ama a mata e a floresta, de cujos seres conhece as propriedades, e aprecia a vida ao ar livre. Orixá da fertilidade, é cultuada juntamente com Ossaim. É chamada de Ibualamo, que significa o poder de Erinle é retirado das profundezas da terra. Seus símbolos são óta (pedra de assentamento); ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder); èjùwèrè (instrumento ritual semelhante ao ìrùkèrè, feito de couro e, por vezes, enfeitado com búzios ou miçangas); búzios; òpa (bastão com dezesseis pássaros, forjado em metal); o sèkèrè (maracá); e o àdó (pequena cabaça utilizada para a conservação de pós de uso mágico e medicinal). Seu metal é o ferro e sua preferência são as roupas multicoloridas, as pulseiras de prata ou as confeccionadas com búzios e couro e os colares, também confeccionados com búzios e couro.
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SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Ìrókò é o orixá da cura, da paz, da harmonia social, da tranquilidade, da fertilidade e do poder espiritual. Capaz de atrair e preservar o axé, tem como símbolos máximos a árvore sagrada ìrókò e florestas, parques e jardins. Tem por símbolos também o espaço, o tempo, a terra, òta (pedra de assentamento), ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder) e búzios. Ìrókò veste branco e colares multicoloridos. Tem relação estreita com Egbé, Ossaim, Egungun, Geledé e Iyami Oxorongá, entre outros orixás. Favorece o desenvolvimento do ori e da sensibilidade às energias sutis: por isso, um de seus nomes é Olúwéré, Senhor dos mistérios e da rapidez. O fato de Ìrókò favorecer o desenvolvimento do ori faz com que alivie estados de perturbação mental e estimule firmeza e estabilidade pessoais, tornando a pessoa mais forte e apta a enfrentar os desafios da vida. É cultuado em sinal de gratidão à natureza, por tudo o que ela oferece ao homem.
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SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Kori é a orixá da juventude e da vida, mas, como para viver não basta respirar, seu axé confere um sentido à existência de seus devotos, facilitando o processo pelo qual cumprirão seu bom destino. É protetora das crianças, especialmente das crianças abiku. Todas as pessoas são constituídas de energias positivas e de energias negativas, mas em alguns casos o peso de elementos como dificuldades, teimosia e desgraças é acentuado. Kori é cultuada para romper com estas desgraças, trabalhando ao lado de Egbé e de Ibeji para manter os abikus na terra. Ao lado de Egungun e de Ifá, atua para corrigir o mau destino de um devoto e para neutralizar um fluxo energético passageiro, mas nocivo. Kori atua em questões relacionadas a fertilidade e a sobrevivência.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Protetor da agricultura, força criadora e regeneradora, Ìgúnnukó favorece o plantio e a colheita. Integra cultos a ancestrais masculinos e femininos com a finalidade de manter a conexão e a harmonia com os antepassados, para que sua energia favoreça a boa colheita, a fertilidade, a cura, a prosperidade, a justiça nas relações e a paz social. Como nos cultos a antepassados, o culto a Ìgúnnukó visa eliminar ou atenuar calamidades públicas. Seus símbolos são potes de barro; tambores; óta (pedra de assentamento); ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder); e búzios. Sua preferência são as roupas e os colares multicoloridos.
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SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
A palavra Gèlèdé designa ao mesmo tempo um orixá, uma corporação de seres espirituais, o conjunto dos ancestrais femininos da humanidade, o culto a estes ancestrais e sua instituição, Egbé Gèlèdé. Todos os ancestrais femininos, as Ìyagbà ou Ìyámi, têm sua instituição em sociedades como Egbé Eleye, Egbé Ògbóni e Egbé Gèlèdé, consideradas secretas pelo fato de os seus conhecimentos serem transmitidos apenas a iniciados. A Sociedade Geledé, integrada por homens e mulheres, cultua as Ìyagbà, também chamadas Iyami, que simbolizam aspectos coletivos do poder ancestral feminino. Tem por finalidade propiciar a expressão de poderes místicos femininos, favorecer a fertilidade e a fecundidade, reiterar normas sociais de conduta e atrair o axé. É dirigida pelas erelú, mulheres detentoras dos segredos e poderes de Iyami, cuja boa vontade deve ser cultivada por ser essencial à continuidade da vida e da sociedade. O Culto a Geledé é encontrado principalmente entre os iorubás do ocidente, incluindo os de Ketu, Ohori, Anago, Ifoniyin, Awori, Egbado, Ibarapa, povos do estado de Ogun, na Nigéria, e os Sabe, da República do Benin. Varia muito em resultado de fatores históricos e de padrões de culto herdados e adquiridos nas diversas linhagens. Em cada cidade é associado a uma divindade da terra ou da água.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Criador, Senhor da justiça. Em alguns relatos míticos Odùdùwà é a Ìyagbà incumbida pelo Ser Supremo de criar o planeta terra; em outros, teria se apropriado desta função em meio à impossibilidade de Oxalá executá-la, cabendo a ele modelar os corpos dos seres humanos para compensar esta situação. Na concepção africana algumas características de um elemento não são, necessariamente, mutuamente excludentes: por isso, existem relatos, ainda, segundo os quais Odùdùwà seria um homem deificado, e não originariamente uma Ìyagbà. Assim, em alguns mitos, é apresentado como o patriarca mítico do povo iorubá, considerado o “primeiro ocupante de uma terra antes desabitada”. Também chamado Oodua ou Odudua, nome que significa O Grandioso que criou a existência, segundo a narrativa mítica ele e seu séquito de desbravadores teriam sido os sobreviventes de um dilúvio. Daí serem chamados pelos antigos de ooye, os que foram salvos. Narrativas orais concordam ao afirmar que Oduduwa e seus seguidores estabeleceram-se em Ilê-Ifé, tornando-se ele o primeiro ooni (rei) da cidade, considerada a pátria espiritual dos iorubás e local onde teria ocorrido a criação do mundo. Mesmo sendo impossível precisar com exatidão a sua origem ou separar seus feitos míticos dos reais, todas as tradições iorubás o apontam como o grande patriarca desse povo. Os reis locais, que governam subgrupos, consideram a si mesmos como seus descendentes diretos, o que por si só constitui e legitima a razão de ser de sua realeza, mantida através de um sistema de sucessão imutável há vários séculos.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Onilè, contração de oni (senhora) e ilè (terra, espaço), é a Senhora da Terra, a Senhora do Espaço: como a palavra ilê é compreendida na acepção física do espaço, ðnilÄ trabalha com os domínios de Obaluaiê. Mas o conceito de ilê não se reduz à acepção física: afinal, a terra tem funções, relacionadas às funções de outros orixás, e o fato de acolher a humanidade indica a importância da Mãe Terra. Tudo o que ocorre, ocorre sobre a terra: por isso, Onilè é a guardiã da nossa moradia e o grande símbolo da sobrevivência, estreitamente associada a Ewa. A existência humana tem muitos aspectos – físicos, emocionais, mentais, espirituais – e Onilè oferece a base desta existência tanto no aiyê quanto no orun. A terra é o símbolo sagrado por excelência, e Onilè é a guardiã deste espaço sagrado.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Olójó, contração de ol (senhor) e ójó (dia, tempo), é o Senhor do Dia, o Senhor do Tempo. Partilha este nome com Ogum e, como ele, favorece os seres humanos no plano das ações. Olójó é o orixá do tempo e das mudanças de ciclo: por isso mesmo, encontra-se relacionado a Orì, o orixá do destino. É evocado para permitir que rituais sejam realizados e para converter uma época adversa em uma época promissora: pode ser evocado, enfim, quando se deseja que as ações realizadas em um dia sejam bem-sucedidas. Enquanto algumas questões envolvem sobrevivência, as conquistas são pressupostos da maturidade e ninguém vence na vida por acaso: o culto a Olójó permite manter oportunidades, colocar graça nos feitos do indivíduo e prolongar os ciclos positivos de sua trajetória existencial.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br
Ogum é patrono de ferreiros, caçadores, guerreiros e todos os que lidam com ferro e aço, incluindo os profissionais que realizam tatuagens e circuncisões, os policiais e os cirurgiões. Escolhido por Elédùnmarè para abrir caminho à civilização, Ogum, forte e poderoso, é o herói civilizador: trabalha sobre a natureza do ferro e do fogo. Rege a mineração, a metalurgia, a guerra, a caça e a agricultura, ligando-se assim à questão do trabalho e da tecnologia. Desbravador, abre caminhos para realizações, encontrando-se por isso estreitamente relacionado às Iyami Oxorongá. Ogum é considerado muito feroz. Qualquer contrato ou juramento selado em seu nome deve ser cumprido: são costumes tradicionais beijar um pedaço de ferro ou morder uma chave para demonstrar compromisso com a verdade e a justiça, em nome de Ogum: caso o compromisso não seja cumprido ou haja juramento falso, considera-se que o faltoso sofrerá sérias consequências. Por outro lado, em muitos mitos sua generosidade é exaltada: “O sucesso da colheita fez sua casa farta e seus vizinhos foram beneficiados por sua grande generosidade. Compartilhava alimentos e conhecimentos, ensinando-os a caçar, forjar, guerrear e plantar”. Alguns de seus epítetos enfatizam sua importância no panteão de orixás: Alakaaye (Aquele que é espalhado pelo mundo inteiro); Olójó (Dono do dia); Ògún Onírè (Ogum, Rei de Irê). A sociedade de caçadores, ferreiros, mineradores e outros profissionais que têm Ogum por mentor denomina-se Egbé Odè. São guardiões do conhecimento trazido por esse orixá. Todas as atividades profissionais regidas por Ogum são atribuídas a homens de personalidade forte e, para ser um bom caçador, é necessário, entre outras coisas, aprender segredos que dizem respeito à sabedoria primordial desse orixá. Caçadores experientes detêm conhecimento a respeito de recursos mágicos de ação sobre a natureza da floresta, para que sua presença e atividades sejam admitidas nesse ambiente.
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Em alguns mitos Iemanjá é esposa de Oranyan, descendente de Oduduwa e fundador mítico de Oyó, de quem ela teria concebido Xangô. É considerada mãe de muitos orixás, entre os quais Ogum e Oxum. O nome Yemoja, constituído de Ye (mãe), omo (filho) e eja (peixe), significa Mãe dos filhos peixes. Iemanjá, mais relacionada ao poder genitor do que à gestação, é também chamada Awoyo (Elegante e Bela, Agradável aos olhos). Senhora de todas as águas, é associada à fertilidade, à procriação e ao poder das Iyami; abençoa seus devotos concedendo-lhes fertilidade, longevidade, prosperidade, paciência e motivação para lutar pela vida. Um de seus orikis diz: Diante da casa da Senhora dos barcos brota a prosperidade. No quintal da Senhora dos barcos brotam pérolas. Seu metal é a prata. Seus símbolos incluem o mar, as embarcações, o coral, as conchas e estrelas do mar, os fósseis marinhos; óta (pedra de assentamento); ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder); búzios. Suas cores são o branco e todas as tonalidades de azul. Seus colares são feitos de contas brancas transparentes e azuis, em diferentes tons.
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Divindade incumbida pelo Ser Supremo de criar a terra sólida e povoá-la e de modelar a forma física do homem, Oxalá é frequentemente descrito como o representante do Ser Supremo na terra. Sendo um orixá muito antigo, diretamente originado do Ser Supremo, compartilha com Ele alguns nomes, entre os quais se encontram Òrìsànlá (Grande Orixá, Rei que é Grande); Òrìsà-àlá (Orixalá, Orixá da Pureza); Obàtálá (Rei em vestes brancas ou Rei da Pureza); Atérerekáyé (O que se expande por toda a extensão da terra); Elédá (Construtor); Alábaláse (Regente que empunha o cetro, símbolo da autoridade divina); Ibìkéjí Èdùmàrè, (Representante de Olodumare); Osàlùfon (Orixá da paz do reino de Ifón); Ògìrìyán (Aquele que se alimenta de iyán, inhame pilado); Òrìsà funfun (Orixá branco, Orixá limpo); Aládé séséefun (Rei cuja coroa é confeccionada com séséefun, miçangas brancas); Òrìsà Ifè (Orixá da cidade de Ifè). Orixá da criatividade, da paz e da tranquilidade, neutraliza turbulências e torna seus devotos prósperos, desde que se esforcem para isso: Oxalá dá a seus filhos motivo para rir e eles riem. Este Orixá é exigente em relação ao senso de moralidade de seus filhos, que devem ser como a água da nascente. Exige que sejam corretos e de coração puro: Aiye won a toro bi omi a-f’oro-pon! (Suas vidas serão puras e límpidas como água apanhada logo cedo pela manhã!); Obatalá a dani bo ti ri (Obatalá faz a pessoa do seu jeito); Orisa to da abuke, lo se okun si aro ni idi (Orixá que fez o corcunda, é ele também que fez o aleijado mancar); Oba aji je igbin (O rei que come igbin logo cedo pela manhã). As pessoas que nascem defeituosas são chamadas Eni Orisa (Devotos do Orixá), em homenagem a Oxalá, e devem respeitar certos tabus alimentares. Em algumas regiões é costume dizer-se a uma mulher grávida Ki Orisa ya ‘na ‘re ko ni o (Possa Orixá realizar um belo trabalho de arte para nós). Ouve-se também: Ki ‘se ejo eleyin gan-n-gan; Orisa l’o se e ti ko fi awo bo o (Os dentuços não devem envergonhar-se. Foi Orixá quem os fez e não providenciou cobertura suficiente para seus dentes). Ayé won á tòrò bí omi afàárò-pon! Suas vidas serão puras e límpidas como água apanhada na nascente logo cedo pela manhã! Obàtálá adáni bó tí ri. Obatalá fez a pessoa do jeito que ela é. Òrìsà tó dá abuké, ló se okun sí aro ní idi. Orixá é quem fez o corcunda e também fez o aleijado mancar. Oba àjí je ìgbín. O rei que come ìgbín logo cedo pela manhã (ìgbín como símbolo de autocontrole, paciência e serenidade). Oxalá é cultuado por toda a terra iorubá. Mulheres estéreis pedem a benção de conceber e mulheres grávidas bebem água de seu santuário para terem filhos bonitos. Inválidos são tratados com essa mesma água, colhida de manhã bem cedo, devendo a pessoa que vai apanhá-la permanecer em silêncio total durante a realização dessa tarefa. A água do santuário de Oxalá deve ser trocada todos os dias para manter-se pura. Antigamente apenas mulheres virgens ou sem atividade sexual e de indiscutível reputação moral podiam apanhar água em sua nascente. Durante todo o percurso de ida à fonte e retorno, para evitar que lhe dirijam a palavra, a pessoa que apanha a água faz soar continuamente o agogo, informando tratar-se de um cortejo sagrado.
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Oxum é a Senhora dos rios, dos metais nobres, da fertilidade e da prosperidade. Mulheres louvam afertilidade trazida por Oxum repetindo a expressão Yèyé ò, yèyé ò, yèyé ò! (Oh, graciosa Mãe, oh,graciosa Mãe, oh, graciosa Mãe!). Alguns mitos referem-se a ela como Òsun Òsogbo (Oxum da cidade deÒsogbo), outros enfatizam sua proximidade com Logunedé, ora apresentado como seu filho, ora como seumensageiro, havendo entre eles tão estreita relação que chegam a ser considerados divindadescomplementares. Outros mitos, ainda, referem-se a ela como esposa de Ifá. E aqueles que a apresentamcomo esposa de Xangô narram que, ao tomar conhecimento da morte do marido, desesperada,transformou-se num rio. Esta Ìyámi Àkókó (Mãe Ancestral Suprema), é bastante cultuada em Òsogbo e é considerada, também, adivindade protetora de Abéòkúta. Seus devotos frequentemente dedicam-lhe um córrego ou rio,chamando-o de odò Òsun (Rio de Oxum), ao lado do qual colocam seu santuário. Chamada Mãe dascrianças, a ela pertence a fertilidade de homens e mulheres. Mas não é apenas a fertilidade que lhepertence: a prosperidade também. Confere proteção contra acontecimentos adversos a seus devotos,sendo invocada nas mais distintas circunstâncias, pois não há o que não possa fazer para ajudá-los. Foi aprimeira Iyami encarregada de ser Olùtójú àwon omo, A que vela por todas as crianças, e Aláwóyè omo, Aque cura crianças. Todo ano, por ocasião do festival realizado em sua homenagem, mulheres estéreistomam água de seu santuário esperando retornar no ano seguinte com os filhos por ela concedidos, paraagradecerem a graça alcançada. Alguns de seus símbolos são as tornozeleiras, os braceletes e objetos de bronze, ouro, latão e outrosmetais dourados, como a espada, o leque, o pente e o espelho. Um de seus orikis diz: Oxum, senhora das águas que fluem suavemente.Oxum, graciosa mãe, plena de sabedoria!Que enfeita seus filhos com bronze.Que fica muito tempo no fundo das águas gerando riquezas.Que se recolhe ao rio para cuidar das crianças.Que cava e cava a areia e nela enterra dinheiro.Mulher poderosa que não pode ser atacada.
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Os primeiros aprendizes de Ogum na arte da caça e da guerra foram Oxossi e Erinlé. Òsòòsì ou Òsòwùsí tem epítetos como Ajagun (Vitorioso caçador e guerreiro); Ajagùnnà (Estrategista que destrói o mal e que oferece boas ideias); Alákétu (Rei de Ketu, Patrono e protetor do povo de Ketu); Odè (Caçador); Olóyè Méjì (Homem de honra portador de dois títulos: Rei de Ketu e Patrono dos Caçadores). Associado à caça e à capacidade estratégica, Oxossi possui intuição e percepção aguçadas. Ama a mata e conhece as propriedades dos seres que vivem lá. Aprecia a vida ao ar livre e a música, muito utilizada nas atividades de caça e na guerra para atrair sorte e fazer do trabalho uma fonte de prazer. Protetor de humilhados e injustiçados, é cultuado para atrair agilidade e sorte nos negócios e assuntos relativos a dinheiro; também zela por assuntos familiares. Um de suas cantigas diz: Ajaguna! Me acolha! Se a morte e a doença estiverem rondando a minha vida, você é grande e poderoso para me oferecer refúgio. Uma de suas cantigas diz: Ajagùnnà ode gbà mí o. Ajagùnnà bí ikú nké lódè, Bàbá o tó sádi, Ajagùnnà. Ajagùnnà! Me acolha! Se a morte e a doença estiverem cantando em minha vida, Buscarei refúgio em você, ó grande e poderoso, que pode me defender. Seu metal é o ferro. Seus símbolos são: óta (pedra de assentamento); ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder); búzios; ofà (arco e flecha); efun (potente e sagrado cal natural); e osùn (espécie de tintura vermelha de uso ritualístico). Sua cor é o azul, na mesma tonalidade do azul de Ogum. Em seus colares se utiliza exclusivamente o azul ou se alterna azul e branco, com ou sem búzios. Suas pulseiras são de couro, com ou sem búzios. As festas realizadas em sua homenagem incluem a caça acompanhada de cantos e tambores e o animal caçado lhe é ofertado.
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Oyá, Senhora dos ventos e tempestades, é conhecida no Brasil como Iansã. É parceira de Xangô, Senhor de raios, relâmpagos e trovões; narram alguns mitos que, após a morte de Xangô, teria se transformado no rio Níger. Segundo outros mitos, teria contraído núpcias com Ogum após ele descobrir a capacidade de Oyá de transmutar-se em búfalo; devido a desentendimentos envolvendo Xangô, Ogum e Oyá teriam lutado até que ela fosse partida em sete partes, e ele em nove. Conhecida pela beleza descomunal, esta Ìyámi Àkókó (Mãe Ancestral Suprema), de espírito guerreiro, capacidade estratégica e força extraordinária e Fortes ventos e tempestades são considerados expressões do descontentamento de Oyá. Seus símbolos são espadas; chifres de búfalo; pedras originárias do rio Oyá; potes de barro; óta (pedra de assentamento); ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder); e búzios. Seus colares são feitos de contas de cor marrom.
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Senhor dos raios, relâmpagos e trovões, Xangô, o quarto rei de Òyó, teve seu culto iniciado nessa cidade e rapidamente expandido por todo o território iorubá, vindo a ser um dos orixás mais cultuados de todos. Considerado feroz, generoso, provedor de filhos, dinheiro, curas e, especialmente, justiça, abomina falsidades, mentiras, roubo e envenenamento. É identificado com o orixá Jàkúta (Aquele que briga com pedras), a primitiva divindade dos raios, relâmpagos e trovões. Somente os bàbá-mogbà, sacerdotes de Xangô, ou as ìyá-Sàngó, suas sacerdotisas, podem responsabilizar-se pelos ritos fúnebres realizados para as vítimas de raio. As punições de Xangô são consideradas nobres e as mortes por raio não devem ser lamentadas. Sendo a casa atingida por um raio, seus moradores se afastam dela temporariamente, cedendo lugar aos sacerdotes de Xangô para que ali realizem os rituais necessários. Vejamos alguns de seus orikis: Sàngó Olúàso àkàtà yerìyerì. Xangô, cujo poder está espalhado por toda parte. Olúkòso, éégún tí n yoná lénu. Xangô, o dragão faiscante, a divindade que lança fogo pela boca. Sàngó Olúàso. Xangô, aquele que reúne (também traduzido por dragão faiscante). Omo olómi tí njé Iyemoja. Filho da Mãe d’Água que se chama Iemanjá.
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Esta Ìyá-Agbà (Mãe Anciã ou Mãe Idosa e Respeitável) é calma, complacente, tolerante, dedicada, bondosa, generosa e maternal. Está intimamente relacionada às Iyami Oxorongá e é dedicada a aspectos da estética feminina. De acordo com o mito, Obá ocupava o último posto entre as esposas de Xangô. Inferiorizada em relação às demais por julgar-se incompetente para cozinhar e para trajar-se com elegância, de natureza delicada e dócil, por demais condescendente, tolerava muitas coisas que a desagradavam. Foi a primeira esposa a abandoná-lo quando ele ficou desesperado por haver destruído com magia seus bens e parte de seu povo. Ao deixar a casa, sem saber para onde ir, nem o que fazer, pôs-se a chorar amargamente, desfazendo-se em lágrimas até transformar-se por completo num rio, o odò Obà. O grande estrondo verificado na confluência dos rios Oxum e Obá é atribuído à rivalidade entre ambas. Seus metais são o ouro e o ferro. Seus símbolos são: rios; embarcações; óta (pedra deassentamento); ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder); e búzios. Suas cores são o branco e o multicolorido. Seus colares são multicoloridos e suas pulseiras são de ouro e outros metais dourados, como o latão.
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Lógunede significa Guerreiro da cidade de Edé, metrópole situada no estado de Oxum, na Nigéria; também é chamado de Asíwájú Òrìsà (Líder dos Orixás), entre outros nomes. Filho mítico e aprendiz de Oxossi, é associado à caça e à capacidade estratégica. De intuição e percepção aguçadas, esse orixá corajoso, protetor dos humilhados e injustiçados e grande poeta, é cultuado para atrair agilidade e prosperidade, trazendo sorte aos negócios e à obtenção de dinheiro: por tal razão é considerado o orixá do dinheiro. Em alguns grupos religiosos da diáspora iorubá nas Américas desenvolveu-se a crença infundada de ser Logunedé um hermafrodita, masculino durante seis meses e feminino nos outros seis meses do ano. Esta crença não encontra fundamentos na tradição africana. Seus metais são ouro, latão amarelo e bronze. Seus símbolos são: òta (pedra de assentamento); ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder); búzios; ofà (lança e espada de metal dourado). Suas cores são o amarelo e o azul. Seus colares e pulseiras são elaborados intercalando-se contas amarelas e azuis.
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Ewa ou Yewa, a Mãe que sempre existirá, a Mãe Eterna, é uma Ìyagbà fortemente relacionada às Iyami. Guerreira relacionada ao fogo, detentora de poderes mágicos de cura e transformação, é maternal e acolhedora. Atenta ao sofrimento humano, visa transformar dores em alegrias. Aprecia atividades manuais, sendo dotada de criatividade e senso estético. Seus símbolos são: óta (pedra de assentamento); ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder); osùn (espécie de tintura vermelha de uso ritualístico); ìkódíde (pena vermelha da cauda do pássaro òdìdè); búzios. Tem preferência por roupas multicoloridas e seu colar é verde, amarelo e marrom.
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Obalúwayé, contração de Oba-‘lu’aiyé (Rei que é o senhor da terra), é chamado também de Olúwa Aiyé (Senhor da terra) e Olódè (Senhor do aberto): por ser o Senhor da terra, pede-se licença a ele para usá-la. É também chamado Ilè-gbóná (Terra Quente), Bàbá (Pai) e Sòpònná (Varíola). Senhor da varíola e de todas as enfermidades, Obaluaiê inspira terror e respeito por punir os faltosos com doenças, mas é associado também à cura, à justiça e à paz social. Sua energia é manipulada para agradecer a terra pelo que esta oferece às pessoas. Seu poder é usado na cura de todas as enfermidades, particularmente as de pele. Este orixá proíbe a mentira, o envenenamento e a magia negra. Usa roupa vermelha e viaja quando o sol está bem quente: por isso as pessoas são desaconselhadas a usar roupa vermelha e a andar sob o sol para não lhe causar aborrecimento. Cuidados especiais devem ser tomados durante a estação das secas, de modo a não se adotar nenhum procedimento que possa ofendê-lo; isto é compreensível porque a varíola é mais frequente e se espalha mais facilmente durante esse período. Sua permissão é solicitada em festas através de expressões como Deixe-me obter a permissão do senhor da terra: se ele nos permitirá dançar. Sua hospitalidade é solicitada no cultivo à terra através da reza O fazendeiro poderia ser extraordinariamente agradado, O algodão não queimaria, e desagradaria o fazendeiro. Entre seus nomes encontram-se Jagun (Guerreiro; Caprichoso; Protetor de crianças abiku); Alajogun (Orixá da prosperidade; Protetor das casas e cidades) e Alapomoro (Aquele que realiza curas trabalhando com o axé de Ossaim: cura inclusive no plano das emoções e revela tendências para o ciúme). Obaluaiê é estreitamente relacionado a Exu. Seu castigo, como o de Xangô, é considerado uma punição nobre. Assim, a morte de alguém por varíola não deve ser lamentada, mas, ao contrário, deve ser aceita com alegria e gratidão. Daí origina-se outro de seus nomes: Alápadúpé (O que mata e a quem devemos ser agradecidos por haver morto). Alguns anciãos dizem que Obaluaiê é irmão mais novo de Xangô. De fato o elemento fogo é comum às duas divindades, nas febres provocadas por Obaluaiê e no poder incendiador de Xangô. Esta crença leva os devotos de Xangô a considerarem-se imunes à fúria de Obaluaiê, e vice-versa: daí a expressão Não há dano que o irmão mais velho possa infligir aos filhos do irmão mais novo. Estes orixás são tão familiares entre si que, segundo narrações tradicionais, Obaluaiê refere-se frequentemente a Xangô, em tom de brincadeira, dizendo que quando este vai destruir uma única pessoa faz um enorme alarde, com extraordinários efeitos de luz e som (relâmpagos e raios), enquanto ele próprio destrói centenas de pessoas silenciosamente.
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As plantas, imprescindíveis à vida e ao culto a orixás, são utilizadas como recurso litúrgico, mágico e medicinal. Ossaim é o guardião do axé da flora e seu patrono: cabe a este orixá efetivar o poder das plantas ou não e, por este motivo, sempre que se colhe uma planta deve-se evocá-lo para que preserve a essência vital do elemento colhido. Narra o mito que Ossaim perdeu uma perna e teve a capacidade da fala alterada após uma briga com Exu: por isso, como as plantas, tem apenas uma perna e fala como se estivesse assobiando. Apenas os olòsányìn, seus sacerdotes, são capazes de entender o que diz. Estes sacerdotes são magos capazes de manipular as forças do orixá presentes nas folhas. Ossaim, muito rápido na solução de problemas, é um curandeiro hábil que aplaca sofrimentos, podendo proporcionar ao homem tudo o que deseja. Seus iniciados adquirem poder para manipular folhas. A palavra folha designa elementos de todo o reino vegetal, como folhas, sementes, raízes, seivas e cascas de árvores. Toda pessoa que lida sempre com esse reino está diariamente em contato com Ossaim, que pode proporcionar aos sacerdotes a possibilidade de realizar jogos divinatórios manipulados magicamente, caminho distinto do utilizado por Ifá, que possibilita adivinhar pela interpretação de odus. Através de magia pode-se fazer a estátua de Ossaim falar. Durante a consulta o olòsányìn dialoga com essa estátua: utilizando palavras rituais e o som do sèkèrè, o sacerdote invoca Ossaim, que responde como se estivesse assobiando. Embora todos os presentes ouçam o som emitido pela estátua, a linguagem é compreendida apenas pelo olòsányìn que fez a invocação. Seus principais símbolos são: òpa (bastão com dezesseis pássaros, forjado em metal); sèkèrè (maracá); e àdó (pequena cabaça utilizada para a conservação de pós de uso mágico e medicinal).
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Òsùmàrè ou Èsùmàrè é um sábio relacionado à estética e às ações de defesa pessoal. Favorece a comunicação entre orun e aiye e a comunicação dos homens entre si e destes com a natureza, bem como as transformações, pois confere poderes mágicos. Favorece transformações, pois é fortemente relacionado à magia. Seus metais são o ferro e o latão e seu principal símbolo são as serpentes forjadas nesses metais. Também é simbolizado por esculturas em madeira que representam uma figura humana rodeada por serpentes. Outros símbolos são búzios; cabaças; obi; orobô; efun (potente e sagrado cal natural); osùn (espécie de tintura vermelha de uso ritualístico); òta (pedra de assentamento); ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder). As cores de Exumarê são o verde e o amarelo.
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Todos os ancestrais femininos, as Ìyagbà ou Ìyámi, têm sua instituição em sociedades como Egbé Eleye, Egbé Ògbóni e Egbé Gèlèdé, consideradas secretas pelo fato de os seus conhecimentos serem transmitidos apenas a iniciados. As Iyami Oxorongá representam o poder ancestral feminino e os elementos místicos da mulher em seu duplo aspecto: protetor e generoso, perigoso e destrutivo. Todos os orixás femininos são detentores deste poder. As Iyami são zeladoras da existência e guardiãs do destino: por isso sua boa vontade, essencial à continuidade da vida e da sociedade, deve ser cultivada. Pertencem a um grupo de seres espirituais chamados Ajogùn, cujas funções incluem carregar o ebó para alimentar-se dele ou, mais precisamente, do sofrimento humano do qual está impregnado. Ao processarem as energias dos ebós, possibilitam a cura, a superação de dificuldades e a atração de bens necessários. Sua relação com os poderes mágicos lhes possibilita também neutralizar os efeitos negativos de pensamentos, palavras e ações destrutivas que uma pessoa dirija contra outra ou contra si mesma. A presença e a influência de Iyami no jogo oracular é fundamental, pois se manifestam em todos os odus e, sendo parceiras deles, têm como ajudá-los a comunicar-se entre si. Parceiras também de Exu e dos demais orixás, indicam com eles os ebós necessários para cada situação, sendo de competência comum a todos a tarefa de transportá-los. A expressão Ìyámi, Minha(s) Mãe(s) ou Zeladora(s), designa um orixá cujo poder é tão grande que todos se referem a elas sempre no plural, aludindo a uma coletividade. Quando se quer saudá-las basta pronunciar um de seus nomes, pois elas representam uma coletividade de seres relacionados a todos os elementos fundamentais para a sobrevivência dos homens: por isso traí-las significa trair a própria essência vital humana. Invocar as Mães implica em associar-se a uma coletividade de energias que vivem em estreita relação com elementos indispensáveis à sobrevivência humana. As Iyami, curandeiras com grande poder mágico, podem assumir diferentes formas. Intervêm na existência humana no plano individual (na saúde física, psíquica e espiritual, no casamento e na sexualidade) e no plano social (no trabalho e nas amizades). Elas apóiam as pessoas em sua tarefa de organizar pensamentos e conhecimentos para melhor atingir objetivos, atraindo sorte e favorecendo conquistas materiais. Promovem mudanças no plano emocional, facilitando que um homem nervoso se acalme e um impaciente torne-se paciente. Intervindo nos destinos, protegem as pessoas de danos causados por inimigos e por falhas próprias. Como harmonizam relações, favorecem casamentos. Sendo portadoras de axé, favorecem a aquisição e a manutenção da energia vital; protetoras e zeladoras de tal energia, orientam as pessoas quanto à melhor maneira de realizar seu destino. No aiye as Iyami trabalham para colocar ordem no conhecimento e na sabedoria dos seres, e transmitem isso ao orum através de assentamentos já consagrados a elas, de iniciações e da realização de constantes oferendas e ebós. A partir do momento em que se estabelece uma ligação com Iyami, adquire-se melhores condições para atingir objetivos e concretizar ideais. A natureza, que inclui os seres humanos, possui uma ligação energética entre os mundos visível e invisível e recebe o toque divino das Mães. Água, ar, terra e fogo constituem elementos através dos quais se pode chegar a elas. Assim sendo, pode-se evocá-las com água, obi e orobô em rios, mares, encruzilhadas, estradas, ao pé de um peregun, na mata ou no quintal de casa, entre tantos locais possíveis, dado o fato de pertencerem à natureza, particularmente à terra. As mulheres pertencentes ao grupo de devotos das Iyami são chamadas Ìyá-Agbà ou Ìya Aiyé (Mães do Universo, Mães Anciãs ou Veneráveis Mães Anciãs); os homens são chamados de Òsó (Bruxo, Feiticeiro). Ambos ficam atribuídos do poder de manipular o destino humano através de rituais de consagração. A aquisição do poder das Iyami ocorre pelo nascimento, por herança e pela iniciação. Esta última pode proporcionar a proteção delas para o iniciado e seus familiares e amigos mais próximos e pode, num grau mais elevado, permitir a transmutação física, embora exclusivamente no caso de mulheres. Diz o provérbio que o filho de Iyami tem dois ouvidos, dois olhos e uma única boca, para ouvir e ver bem mais do que falar. Falar sobre as Mães inspira a sensação de poder e sabedoria, muitas vezes equivocada, porque um devoto que não saiba proteger e preservar a força e os segredos confiados a ele será vencido facilmente. Falar sobre elas é uma tarefa desafiadora porque exige cumplicidade entre quem fala e quem ouve e uma responsabilidade rara das pessoas em relação ao uso que fazem das palavras. Por isso, durante a iniciação, as pessoas se comunicam o mínimo necessário. Os iniciados em Iyami possuem as marcas simbólicas das Mães em seu corpo e podem sentí-las até mesmo fisicamente. Essas marcas indicam sinais de nobreza. Os devotos das Mães muitas vezes acabam se tornando líderes. Deles exige-se postura séria e rigorosa e uma auto-educação para que não fiquem mencionando o poder delas. Pessoas indiscretas ou que se considerem poderosas não devem cultuá-las, pois sua postura afasta o poder das Mães. Tolerância e paciência, qualidades do sábio, são os principais meios de se venerar Iyami e aos demais orixás. O devoto das Mães deve ser verdadeiro, leal, fiel e respeitoso para criar espaços onde elas possam viver e atuar. As Iyami têm o poder de tornar o tempo favorável ou desfavorável, podendo provocar morte prematura ou prolongar a vida: a capacidade de trabalhar com seus poderes para atuar sobre a duração da existência, entretanto, é privilégio de poucos sacerdotes. Os iniciados em Iyami pelo Oduduwa Templo dos Orixás reunem-se periodicamente para manter e fiscalizar o culto aos orixás, zelar pela casa e tratar de assuntos relevantes para a comunidade que frequenta a instituição. Um dos eventos coletivos mais importantes do templo é o Festival de Iyami, que ocorre anualmente.
Referências: SÁLÁMÌ, Síkírù (King). Disponível em: https://oduduwa.com.br